sexta-feira, 24 de junho de 2011

documentação do processo "58 passos até entrar na vila" criação do coletivo qualquer dentro do Festival Pedras D'agua

ela corre com o eléctrico
passam carros vários muitos
não os vejo
vejo-os
procuro-os por entre as pessoas
(e no momento em que escrevo isto a cristina fala-me sobre a graça dessa procura)
braços graaaandes balançam
homem pára pausa anda frente
trás atrás de ibon
e continua caminho sombras no autocarro
ele pausa ela passa
e curva
dançam por entre danças outras
gesto que surge
e perna levanta
alguéns olham apressados
e continuam
ela entra
e sai
e entra na rua
espaço tão aberto onde tudo (se) passa
eles uma paisagem no meio de tantas outras
ele agarra mão dela
e o diálogo-discussão começa
som irritante do motor do carro aqui parado parou
caminham falando
gestos desenhando
aqui ainda chegam palavras...
ela pausa sem pausar e a pausa mexe
suspensão do momento é força
e desaparece
ele atira braço e segue junto a senhora que passa
é arrastado pelo grupo-maré
e volta
ela descansa no pilar do seu tamanho agachada

ele



ela

casal de meninos passam perto à minha frente

do outro lado são como quadros que surgem
e se desmancham
e surgem novamente
diferentes
e....

Mariana Santos

segunda-feira, 16 de maio de 2011

"58 passos até entrar na vila"

O desmanchar contínuo de um lugar que abrange trânsitos ou os diferentes lugares que vão e vem com as pessoas.

Escolhemos este espaço diante da Farmácia, atrás da paragem de ônibus, do lado da igreja, na frente do Martim Moniz, que não tem limites claros e foge para cima das Escadinhas da Saúde, se vai lá com o transito dos carros e corre com pressa pela rua da mouraria.

Nuvens passam.

Andorinhas em linhas.

Pombos fazem ponto.

Caminhar e pausar, pausar e caminhar.

Passos na pedra.

A primeira camada é sobre as trajetórias, os deslocamentos das pessoas, aglomerações e dispersões que vão criando e desfazendo o espaço. Só depois emerge o gesto, as direções e volumes no corpo, o bater do sol, se é segunda ou feriado. Há pequenos encaracolamentos no recolher uma moeda que caiu, há sorrisos e um olhar que afina no céu lá onde o bico do prédio acaricia.

Estamos a pesquisar o dialogar do movimento com o movimento, os deslocamentos que se juntam a outros deslocamentos, o compartilhar de um espaço desde a prática de estar lá. Uma abertura para a existência. Um trabalho que aprofunda a escuta do aparecer do gesto e deixa que este leve (traga) algo à presença.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

"A Rua", a rua

"A rua", a rua

é curiosa a sensação que tenho tido em relação aos encontros com as ruas da Mouraria. "A Mouraria", "o bairro Mouraria", a idéia de bairro da Mouraria que há tanto escolhi me relacionar, a representação da Mouraria que dia após dia, durante as horas insiste em mostrar-se outra.

O mesmo passa-se com "O Galdino", que desde que tomou uns "penaltis" no bar em que estivemos a dividir uma pizza, deixou de ser uma representação ou vontade de ser que eu queria de Galdino e mostrou-se o Galdino, aquele que também gosta de beber uns gorós no bar. E porque não?

Também ontem "No Beco da Amendoeira", o tal beco da amendoeira complicado, difícil, violento, estavamos a prosear sentados na rua, tomando o resto de sol do dia enquanto a nuvem preta se aproximava, falando de fodas e caralhos e conas com "A dona Helena" que fala muito mais palavrão que o Fernando.

Isso da gente se relacionar com as coisas a partir da gente, sem levar em consideração o que lá está a ser vida, parece-me injusto. Um momento de frustração, do Galdino conceito que vira experiência, conversa, carne. Ou da dona Helena, que vive a falar palavrões e não tem nada que ver com a mulher de nariz grande que teve a vida a costurar toalhas de linha que eu havia imaginado. O nariz continua lá, mas ao deixar-me ver que dona Helena, que Galdino, que dona Luiza, que anã me aparecem, me surpreendo, me frustro e tenho que reconfigurar-me diante das expectativas que construí e construo, para poder ser ali a Luciana , que está a falar de qualquer coisa e não a tentar ser "A artista em processo de criação para o pedras d`água".

Assim é que tenho aprendido imenso sobre o lugar em que coloco "as pessoas" e o lugar de disponibilidade para ouvir as pessoas. O lugar do qualquer.

Foi como quando com "A dona Alzira" me ensinou muito sobre a Luciana que estava a cuida-la: olha, cuidado que ela vai sempre ao portão, a sair para a rua e se perde. Entrou em ação a Luciana que cuida da dona Alzira para que ela não saia pelo portão. Dona Alzira se levanta e começa andar em direção ao portão. Luciana vai atrás, já tinha tudo previsto, a direção, o momento de agarra-la e coloca-la para dentro, o que ia dizer. De súbito dona Alzira que ia para o portão muda de direção e vai para dentro do centro de dia. Luciana surpresa, todos a volta se reconfigurando frente as expectativas criadas durante aquele minuto. E eu, Lucianas, aprendendo que mudar de idéia é o mais genial, e aprender a reconfigurar-se e a deixar ser o que tenha de ser, deixar aparecer as lucianas e alziras que queiram ser naquele momento, libertar o conceito de relação luciana-alzira na experiência luciana-alzira, tem-me sido importante demais nesse processo.

Depois só

De como respondo ao que me leu Luciana, ou de como quando caminho não tenho a medida de nem dos meus passos, nem das distancias que percorro.

Uma vertigem continuada entre as costas e o peito, uma parte da frente que avança e leva consigo a de atrás, os lados que às vezes são osso e outras nem são nada. Me lembraste agora de algo que me vou dizendo nestes dias e que habitualmente diz respeito aos outros e só depois, mais depois lembra de mim. É nesta cotidianidade de lisboa, dos conhecidos, de meus passos conhecidos (eu que os acho conhecidos), que començaram a se abrir brechas que por enquanto não fazem mais que incomodar-me, esquivar-me e procurar escapatorias televisibas às vezes, e outras de olhos fechados. Falo-te e falo-me da arrasadora mudança que emerge nos corpos, no estar mirar cheirar tocar que sem querer esta virando uma pratica. Certa elasticidade aparece enquanto miro a sofia ou a lyncon cada dia e não consigo apreender nada sólido, Que merda!(que beleza!) Mudaste tanto hoje na tarde, teus braços encurtaram-se, tua pele talvez esteja mais rigida agora, já não sei nem te chamar por teu nome, e depois; e só mais depois ainda me perguntei sobre esse movimento em mim.